O blogue "Diário de um sociólogo" foi seleccionado em 2007 e 2008 pelo júri do The Bobs da Deutsche Welle - concurso internacional de weblogs, podcasts e videoblogs - como um dos dez melhores weblogs em português entre 559 concorrentes (2007) e um dos onze melhores entre 400 concorrentes (2008). Entrevista sobre o concurso de 2008 no UOL, AQUI.
Para todas aquelas e todos aqueles que visitarem este diário, os meus votos de um 2018 habitado pelo futuro, pela confiança, pela tranquilidade e pela saúde. Sintam-se bem e regressem sempre a este espaço criado a 18 de Abril de 2006. Abraço índico.
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31 outubro 2010

Postagens na forja

Eis alguns dos temas que, progressivamente, deverão entrar neste diário a partir da meia-noite local:
* Genéricos: Dossier (3)
* Séries pessoais: Sobre saúde mental em Moçambique (4); Graça, Marcelino e Rebelo: a frente crítica (6); Astúcias da razão política (2); Política enquanto produção de ideologia (5); Linchar à luz do dia: como analisar? (5) Somos natureza (8); Indicadores suspeitos e comoção popular (11); Vassalagem (4); Cientistas sociais são "sacerdotes"? (8); É nas cidades do país (9); Ciências sociais e verdade (11); Já nos descolonizámos? (12); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (15); Moçambique dentro de 30 anos (série) (6) (recordar aqui e aqui)

Ouro+garimpo+mercúrio+poluição=perigo

O tema constante da segunda imagem (clique com o lado esquerdo do rato sobre ela para a ampliar) pertence ao semanário "Domingo" com data de hoje, p. 26. Um tema que já surgiu várias vezes neste diário, recorde aqui, aqui, aqui.

Simetria

Sobre saúde mental em Moçambique (3)

Mais um pouco da série, colocando algumas ideias, algumas hipóteses.
Tenho por hipótese que uma parte significativa do nosso povo acredita que as infelicidades, que as doenças e que as mortes que nos atingem, não são provocadas por patologias meramente físicas, por microorganismos externos, por distúrbios no organismo ou na psique, pelo orgânico em si. A causalidade do mundo patológico não habita um universo de sentido único, mas um universo de sentidos múltiplos. Acredita-se que as nossas infelicidades, as nossas doenças, são regra geral provocadas por curto-circuitos no relacionamento com as forças do invisível (para usar uma expressão de Tobie Nathan) e seu mundo de regras, permissões e interditos. As forças do invisível - divindades, espíritos, habitando o saber simbólico analógico e mágico (recorde aqui e aqui) - são absolutamente entidades vivas e intervenientes em permanência nas nossas vidas - assim se crê. Mais: A patologia decorrente do curto-circuto não é um problema do doente, de uma entidade individual, mas o problema de um colectivo, de uma família, de uma comunidade. A hipótese que vou defender é a de que os problemas de saúde mental não podem ser analisados fora da epistemologia e da negociação com as forças do invisível. Tal como propus de forma docemente provocatória num seminário sobre saúde mental, é necessário anexar à farmacoterapia, à psicoterapia e às terapias sociais, a espíritoterapia.
(continua)
Adenda: espero que o antropólogo Paulo Granjo e o psiquiatra Jorge Márcio possam aqui dar uma mão, criticando e ampliando o corpo de ideias.

Graça, Marcelino e Rebelo: a frente crítica (5)

Avanço na série.
1. As causas do espanto (término do ponto). Através de sete hipóteses, procurei mostrar as causas do espanto múltiplo diante das posições críticas assumidas por Graça Machel, Marcelino dos Santos e Jorge Rebelo. Aqui e acolá - falta acrescentar - surgem as ideias de que (1) estão saudosos do passado  monopartidário (Rebelo parece ser o mais visado neste como nos pontos seguintes), (2) são defensores da pobreza (são contra o enriquecimento dos Moçambicanos), (2) estão descontentes com este presente e (4) sentem-se aborrecidos por não terem mais relevância no comando partidário-estatal. Por outras palavras, uma bateria de críticas que evacua e/ou minimiza o que os três criticam. As posições de Samora Machel, especialmente de 1974, são estrategicamente ignoradas.
2. Os temas da frente crítica. Quais são os temas da frente crítica? São essencialmente três: (1) corrupção (Graça/Rebelo/Marcelino); (2) elogio incessante do mundo de negócios (Marcelino) e (3) tecnocracia e falta de real diálogo com o povo (Rebelo).
(continua)

Burocracia

O que é burocracia? Uma definição: gestão estatal de pessoas e coisas. A burocracia é uma cadeia diversificada de gestão útil e estratégica de recursos de poder fundamentais, gestão que pode variar segundo épocas históricas e culturas nacionais, com maior ou menor coeficiente de Estado. Quanto mais jovem for a experiência do Estado num país, mais robusto e visível será o peso da burocracia enquanto teia de relações de poder, de gestão de recursos necessários, de clientelismo plural. No sentido corrente (conjunto de actos que impedem a resolução célere dos problemas), a burocracia é, frequentemente, uma gestão clientelista calculada, uma gestão estratégica e útil de recursos de poder (preeminência social, prestígio, monitoria de redes cientelistas, punção de imposto complementar, etc.). Muitas vezes o problema não está em que os funcionários não saibam fazer as coisas ou que sejam preguiçosos: o problema está, antes, em que eles sabem muito bem fazer as coisas e têm uma habilidade admirável na gestão criteriosa e remuneradora dos recursos. Por isso é, regra geral, difícil desburocratizar a burocracia.  Por quê? Porque ela faz parte do jogo normal, tenso e desigual, da vida social, do jogo das relações de poder em campos múltiplos. Assim, a mentalidade de muitos funcionários é não retrógada, mas agudamente moderna e jogadora.

Dossier (2)

Queira consultar a segunda parte de um dossier com peças do semanário "Savana" de 29/10/2010, aqui.
(continua)

30 outubro 2010

Dilma

As eleições presidenciais no Brasil foram e são históricas especialmente por haver duas mulheres em quatro candidatos iniciais (Marina Silva - que durante meses aqui apoiei - e Dilma Rousseff). Amanhã tudo leva a crer que Dilma deverá ganhar o segundo turno das eleições, tornando-se a primeira mulher presidente da história brasileira. Perfil aqui.
Observação: se no nosso país eu tivesse de propor uma mulher para presidente, ficai a saber que essa mulher seria Graça Machel.
Adenda às 15:36 de 31/10/2010: o leitor PS do Brasil sugeriu-me a leitura de um texto com o título Abrindo a carta de Marina, aqui.

Presidente do Brasil

Ao fim do dia de amanhã (tempo local) e após o segundo turno das presidenciais, já se deverá saber quem é o próximo presidente do Brasil, muito provavelmente será uma presidente, Dilma Rousseff. Aqui e aqui.

Postagens na forja

Eis alguns dos temas que, progressivamente, deverão entrar neste diário a partir da meia-noite local:
* Genéricos: Dossier (2)
* Séries pessoais: Sobre saúde mental em Moçambique (3); Graça, Marcelino e Rebelo: a frente crítica (5); Astúcias da razão política (2); Política enquanto produção de ideologia (5); Linchar à luz do dia: como analisar? (5) Somos natureza (8); Indicadores suspeitos e comoção popular (11); Vassalagem (4); Cientistas sociais são "sacerdotes"? (8); É nas cidades do país (9); Ciências sociais e verdade (11); Já nos descolonizámos? (12); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (15); Moçambique dentro de 30 anos (série) (6) (recordar aqui e aqui)

Sobre saúde mental em Moçambique (2)

Vamos lá ao segundo número desta nova série.
Pelo prisma biomédico é possível encontrar múltiplas veredas que conduzem ao desajuste cognitivo e emocional. Bem mais difícil é - creio - encontrar e aceitar outro tipo de veredas para além desse campo (imagem reproduzida daqui).
(continua)

Momentos da vida em Maputo

A "hora do fecho" no "Savana"

Na última página do semanário "Savana" existe sempre uma coluna de saudável ironia que se chama "A hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Deliciem-se com "A hora do fecho" desta semana, da qual ofereço, desde já, um aperitivo:

Custos

Ajudar melhor os necessitados, reduzir custos administrativos e assegurar que as acções previstas sejam visíveis nos "grupos alvo mais vuneráveis" - lemas de um encontro que reuniu durante três, dias na bela praia do Bilene70 participantes (entre os quais o vice-ministro da Mulher e Acção Social mais, certamente, pessoal da segurança e do protocolo) do Instituto Nacional de Acção Social na XII sessão do seu Conselho Consultivo Alargado, com custos que, certamente, foram visíveis.

Dossier (1)

Queira consultar a primeira parte de um dossier com peças do semanário "Savana" de 29/10/2010, aqui.
(continua)

29 outubro 2010

Sinta


A propósito da famosa puíta são tomense e recordando o falecido cantor Camilo Domingos.

Mozal adia bypass

A fábrica de alumínio Mozal adiou o início do bypass. Aqui. Recorde aqui.

Uff! Uma brasileira descreve Tete hoje!

Uma brasileira, Anna, descreve assim em seu blogue a minha terra natal,  cidade de Tete, em postagem de hoje: "Tete tem feito altas temperaturas. As mais altas que já sofri na vida. Digo sofri porque não há palavra que melhor reflita um caminhar ao meio dia debaixo de um sol de 47ºC - Não há! Você perde a capacidade de raciocinar, desejar, refletir, se bobear, até de rezar. Se ansiava por um vento fraco, uma brisa, esqueça, eles também são quentes e mais se parecem com o sopro halitoso de um cano de descarga de carreta, ou com o motor indelicado de um gerador. Sai de perto! Frita!"

Sobre saúde mental em Moçambique (1)

Hoje, pela segunda vez este mês, tive o prazer e a honra de participar, como convidado e palestrante, num seminário sobre saúde mental, desta vez organizado pela Direcção de Saúde da cidade de Maputo, em parceria com a Associação Vanghano va Infulene (=Amigos do Infulene) e Faculdade de Educação da Universidade Eduardo Mondlane. O meu especial obrigado ao Dr. Honório Isaías, director do programa de Saúde Mental da cidade de Maputo, e ao Prof. Balegamire Bazilashe, representante da Comissão Organizadora e professor da Faculdade de Educação da UEM, pelo convite. Penso ser uma ideia sensata colocar aqui algumas ideias que em ambos os seminários procurei defender.
(continua)

Capa

Como habitualmente, a partir de amanhã inicio aqui a publicação do Dossier Savana.

Desculpem

Hoje estive demasiado tempo sem dar a este diário o préstimo que me é habitual. Depois explicarei por quê. Abraço.

DN

"Diário de notícias", aqui

Bypass segunda

Começa segunda-feira a libertação de gazes sem filtro por parte da fábrica de alumínio Mozal. Leia o "Mediafax" de hoje aqui.

Paciência

Todos os dias recebemos (e somos conduzidos por) milhares de mensagens comunicacionais de todos os tipos, umas organizadas pela rotina cognitiva, outras pela rotina ideologicamente programada. Se quisermos saber o que realmente dizem ou pretendem dizer, teremos de as despir, de as colocar desnudas à nossa frente. Essa é uma actividade que exige muita paciência e muito método.

Quino

Um cartun de Quino, reproduzido daqui.

A conferir

28 outubro 2010

Cliché

Basta um pequeno esforço hermenêutico para nos darmos conta da impressionante cultura do cliché político reinante no país ao nível dos produtores de opinião oficial clientelista. Não importa sobre o quê, nem quando, nem por quê, o tema aí está: combate à pobreza absoluta. Creio que pouco falta dizer que viemos ao mundo para combatê-la, que é tudo questão de ADN colectiva e equitativamente distribuída.

Postagens na forja

Eis alguns dos temas que, progressivamente, deverão entrar neste diário a partir da meia-noite local:
* Genéricos: A "hora do fecho" no "Savana"; Boletim sobre o processo político em Moçambique (47), 27 de Outubro de 2010
* Séries pessoais: Graça, Marcelino e Rebelo: a frente crítica (5); Astúcias da razão política (2); Política enquanto produção de ideologia (5); Linchar à luz do dia: como analisar? (5) Somos natureza (8); Indicadores suspeitos e comoção popular (11); Vassalagem (4); Cientistas sociais são "sacerdotes"? (8); É nas cidades do país (9); Ciências sociais e verdade (11); Já nos descolonizámos? (12); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (15); Moçambique dentro de 30 anos (série) (6) (recordar aqui e aqui)

A entrar

Gostos

Anúncio inserto num jornal local

Aprendendo a ser mãe

Tráfico de órgãos

"Pelo menos sete processos de tráfico de órgãos de pessoas foram julgados esse ano pelo Tribunal Judicial Provincial de Manica (TJPM), centro de Moçambique, e 16 pessoas condenadas, entre empresários e curandeiros, disse terça-feira uma fonte judicial" - portal da Rádio Moçambique, aqui. Procure ler o livro com a capa abaixo:

Parabéns ao INAV

Manhã cedo hoje,  cidade de Maputo, muita gente ali no Instituto Nacional de Viação, rés-do-chão no Prédio Macau. Lá estava eu, para renovar a minha carta de condução. Atendimento excelente, cordialidade, eficiência. Os meus parabéns a todos os funcionários, à senhora das fotos e das impressões digitais, ao Dr. Napoleão Sumburane pela competência, pela paciência e pela gentileza. Há dias elogiei aqui, também, o Centro de Exames Médicos.

Fumos sem filtro a partir de segunda-feira

De acordo com o "Canal de Moçambique" online de hoje, a multinacional Mozal inicia próxima segunda-feira, 1 de Novembro (por 137 dias), a libertação de fumos sem filtro, com aprovação governamental e desaprovação dos ambientalistas. Aqui e aqui.

Acusadas de feitiçaria

Pessoas idosas acusadas de feitiçaria, autoridades que é suposto acreditarem nela: um problema no Malawi, aqui.
Adenda às 8:49: no tocante ao nosso país, confira aqui.

"Pode uma moeda reescrever a História sino-africana?"

BBC, trabalho com o título em epígrafe, aqui

MF e DN

"Mediafax" e "Diário de notícias" respectivamente aqui e aqui.
Adenda às 4:42: leia o "Notícias" aqui.
Adenda 2 às 5:07: um pouco de história geral nas relações Malawi/Moçambique por Richard Chirombo, aqui.
Adenda 3 às 5:11: "Ngasa Times" malawiano, aqui.
Adenda 4 às 9:43: "O País" aqui.

Graça, Marcelino e Rebelo: a frente crítica (4)

Mais um pouco deste série, tendo em conta o sumário proposto, com mais algumas ideias, algumas hipóteses.
1. As causas do espanto (continuidade do ponto). Primeira pergunta: por que nos espantamos em geral com as críticas de Graça, Marcelino e Rebelo? Segunda pergunta: por que achamos em particular que os três são falsos críticos? Vou avançar algumas hipóteses. Primeira: o culto da unanimidade e do secretismo. Muitos de nós fomos educados a pensar numa só direcção, a silenciar as bifurcações, a punir na alma os demónios da dúvida e da diferença. Mais: fomos educados no secretismo, a esconder a crítica frontal, os olhos-nos-olhos. Divergir e, ainda por cima, fazê-lo publicamente, pode ser entendido como falta de respeito, como procedimento não africano. Segunda hipótese: culto do patriotismo do sim conveniente em geral, do sim politicamente conveniente em particular, estimulado e pregado aos mais variados níveis pelos evangelizadores políticos oficiosos e pelos polícias ideológicos como sendo o verdadeiro patriotismo. O não, o patriotismo que envereda pelo não no sentido de melhorar coisas, veredas e situações, é considerado heresia, ultrage, antipatriotismo. Terceira hipótese: culto da fidelidade partidária com uma só linha de pensamento. Este é um culto tão mais forte em suas exigências quanto mais amplo for o campo de luta interpartidária (a Assembleia da República é, em meu entender, a este nível, um exemplo paradigmático). Quarta hipótese: culto da crença na venalidade de qualquer acto produzido por um partido no poder. Qualquer produto, pequeno ou grande, modesto ou imponente, de um dado partido no poder, é, por inteiro, considerado como uma característica irremediável de cada um dos seus militantes, como um ADN irrecusável de todos os membros desse partido. Quinta hipótese: o culto do pecado. Falhas, faltas, fissuras comportamentais, pecados cometidos segundo a métrica dos nossos sistemas morais, são transfronteiriços: acompanham os supostos autores toda a vida. Sexta hipótese, espécie de súmula das hipóteses anteriores: culto do sagrado em geral, do sagrado político em particular. O sagrado não se discute, aceita-se. Discutir o sagrado é impugnar gravemente a divindade ab initio. Este ponto não está terminado, prossigo-o brevemente.
(continua)

DZ

27 outubro 2010

Graça, Marcelino e Rebelo: a frente crítica (4)

Postagens na forja

Eis alguns dos temas que, progressivamente, deverão entrar neste diário a partir da meia-noite local:
* Genéricos: Diversos
* Séries pessoais: Graça, Marcelino e Rebelo: a frente crítica (4); Astúcias da razão política (2); Política enquanto produção de ideologia (5); Linchar à luz do dia: como analisar? (5) Somos natureza (8); Indicadores suspeitos e comoção popular (11); Vassalagem (4); Cientistas sociais são "sacerdotes"? (8); É nas cidades do país (9); Ciências sociais e verdade (11); Já nos descolonizámos? (12); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (15); Moçambique dentro de 30 anos (série) (6) (recordar aqui e aqui)

UEM

Amplie a imagem clicando sobre ela com o lado esquerdo do rato

Muchanga e prismas

Analise a forma como a auscultação pela Assembleia da República de Adelino Muchanga, indigitado vice-presidente do Tribunal Supremo, é descrita no "Notícias" e no "Diário de notícias", respectivamente aqui e aqui.

O lenço garrido

MF

"Mediafax" aqui

Edição de hoje

Graça, Marcelino e Rebelo: a frente crítica (3)

Vamos lá a mais um pouco deste série, tendo em conta o sumário proposto no número anterior.
1. As causas do espanto. Permitam-me começar pelo espanto mais comezinho, o espanto em si. Na verdade, aos mais variados níveis, as afirmações de Graça Machel, de Marcelino dos Santos e de Jorge Rebelo têm causado espanto. Espanto porque eles dizem coisas que - julgo que muitos pensam da forma que segue - lhes deviam estar vedadas. Vedadas por quê? Eis exemplos de respostas que, creio, fazem sentido: porque são membros do Partido Frelimo, porque têm responsabilidades acrescidas, porque não deviam ser como os críticos fáceis, porque deviam colocar os problemas em círculos partidários internos, porque estão a fazer o jogo da oposição, etc. O ideal seria fazerem como os camaradas da Assembleia da República: o culto absoluto do seguidismo genuflexivo. Mas permitam-me considerar uma segunda modalidade de espanto, o espanto do espanto. Na verdade, o espanto pode ser visto num segundo prisma, aquele que situa os três críticos numa frente cúmplice com o seu partido. Então, nesse nível, espantam-se alguns com o espanto do geral dos outros. Por quê? Por que ninguém se devia espantar com o facto de a Frelimo - velha matreira que é, ajuíza-se - querer simular um falso jogo democrático, colocando em aparente disfunção três engenhos de ludíbrio. Por outras palavras: os três críticos são falsos críticos. Este ponto do sumário ainda não terminou.
(continua)

26 outubro 2010

TI/Índice percepcional de corrupção 2010

A Transparência internacional colocou-nos em 116° lugar no Índice percepcional de corrupção 2010, com a mesma pontuação (2.7) da Guyana, do Mali, da Mongólia e da Tanzania entre 178 países. Aqui e aqui. Amplie a imagem clicando sobre ela com o lado esquerdo do rato.

Postagens na forja

Eis alguns dos temas que, progressivamente, deverão entrar neste diário a partir da meia-noite local:
* Genéricos: Diversos
* Séries pessoais: Graça, Marcelino e Rebelo: a frente crítica (3); Astúcias da razão política (2); Política enquanto produção de ideologia (5); Linchar à luz do dia: como analisar? (5) Somos natureza (8); Indicadores suspeitos e comoção popular (11); Vassalagem (4); Cientistas sociais são "sacerdotes"? (8); É nas cidades do país (9); Ciências sociais e verdade (11); Já nos descolonizámos? (12); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (15); Moçambique dentro de 30 anos (série) (6) (recordar aqui e aqui)

“Um pouco de nós "encamionados"

O leitor Agostinho Jorge esteve em Montepuez e escreveu ter andado a contar os camiões que transportavam madeira. A foto é dele, do texto com o título em epígrafe extracto o seguinte: “As árvores são parte de templo  sagradas onde as comunidades realizam ritos espirituais. As árvores são elementos que outrora parte desempenhavam nobres serviços ambientais tais como produção de oxigénio e sequestro de carbono, só para mencionar alguns. As árvores que se transportam são parte de uma farmácia natural onde comunidades extraiam medicamentos para curar os muitos habitantes da aldeia que não encontravam solução para seus problemas de saúde nos poucos centros de saúde existentes. As árvores eram como que lojas do povo onde, gratuita e regradamente, comunidades extraíam cordas, estacam, barrotes e tantos outros materiais para construção de suas casas. O mel agradável e puro, que alimentava comunidades em tempos de estiagem ou que era vendido para se comprar alimentos que não são produzidos localmente, será produzido em cada vez menos quantidades dada a redução na quantidade de árvores. As flores das árvores, fonte de pólen para as abelhas poderão escassear.”

Os meus sapatos da festa

Natural/social

É natural estabelecermos diferenças entre coisas, pessoas e situações; é social atribuírmos valores positivos ou negativos a coisas, pessoas e situações. Lá onde naturalizamos a vida, a vida nos socializa.

DZ

"Diário da Zambézia" aqui

Graça, Marcelino e Rebelo: a frente crítica (2)

Mais um pouco desta série, ainda com mais alguma introdução, sempre - como é meu hábito - operando com hipóteses.
Os protestos populares de Fevereiro de 2008 e de Setembro deste ano revelaram insatisfação social. De forma apressada nuns casos, conveniente noutras, tentou-se mostrar que (1) tudo tinha a ver com preços elevados e que (2) esses preços eram resultado único da crise financeira mundial e de oscilações de mercado. Por outras palavras, quis-se mostrar que, não havendo preços elevados e não havendo perversidade internacional, tudo estaria bem, especialmente porque o nosso povo é pacífico por natureza. Tudo? Tudo não: foi ainda preciso dar conta dos desígnios de uma mão oculta, da maldosa mão que sempre aparece para desviar o nosso povo dos bons e ajuizados caminhos.
E de quem podia e pode ser essa mão oculta? Evidentemente que de um tenebroso inimigo externo fazendo uso de submãos caseiras, de submãos caseiras naturalmente pertencentes à oposição.
Não havendo alta de preços, mercado internacional, mão externas e oposição, o paraíso reinaria definitivamente nesta terra.
Mas o grande problema, agora, é a forte e variada crítica oriunda de Graça Machel, de Marcelino dos Santos e de Jorge Rebelo.  Vejam lá, que coisa bizarra: não pertencem aos bairros das periferias urbanas, não são dos partidos da oposição, não partiram montras nem assaltaram padarias, não são vândalos, não estão ao serviço de tenebrosos inimigos externos. São figuras de grande nobreza histórica, são figuras proeminentes da luta de libertação nacional, são patriotas, são figuras do partido no poder. Os seus temas não são os preços, o mercado internacional, as mão externas e os partidos da oposição. Os seus temas têm a ver com o partido no poder  (o seu próprio partido) e com o Estado (que conhecem e do qual fizeram parte).
Há, então, quem se surpreenda no geral, quem se horrorize no particular: camaradas, inimigos, polícias ideológicos, políticos, jornalistas, eruditos, gente comum, jogadores de palavras, polichinelos de vários azimutes. Digamos assim: um bocado todos nós. Receio que aqui e acolá surja a ideia do patológico. Parodiando Shakespeare: há algo de podre não no reino da Dinamarca, mas no reino das coisas sensatas.
Terminada a introdução, permito-me propor o seguinte sumário:
1. As causas do espanto
2. Os temas da frente crítica
3. O futuro
(continua)

17/18 de Novembro

Portal aqui. Se quiser ampliar a imagem, clique sobre ela com o lado esquerdo do rato.

25 outubro 2010

Sinta

Prisma

Esta coisa de ter uma "cor"

Na AFP: "PIRAN, Eslovênia — O médico de origem ganense Peter Bossman tornou-se o primeiro negro a ser eleito prefeito de uma cidade da ex-Iugoslávia. E conquistou de um dia para outro o estatuto de astro na Eslovênia que se orgulha de ter, também, o seu "Obama"."
Observação: será sempre fascinante verificar que a qualificação racial pública é, regra geral, produzida pela imprensa. É aqui onde nos ensinam que negros e brancos (cores extremas do espectro tradicional) são primeiro negros e brancos e profissionais de algo e, só depois, seres humanos, é aqui que a ADN simbólica é inscrita nas convições. Assim, Peter Bossam não é médico, mas médico negro. E, agora, provavelmente não se importa nada de ser negro. Curiosa cruzada a de todos aqueles que pretendem acabar com o racismo racializando-o em permanência.
Adenda às 14:51 de 26/10/2010: título logo abaixo constante da página internacional do "Notícias" online de hoje: